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Quevedo contra las costumbres de los castellanos

martes 10 de julio de 2018

Versión en portugués de Pedro Sevylla de Juana

Contenidos

Francisco de Quevedo

Não calarei, por mais que com o dedo,
já tocando a boca ou já a frente,
silêncio avises ou ameaces medo.

¿Não existirá um espírito valente?
¿Sempre se sentirá o que se disse?
¿Nunca se dirá o que se sente?

Hoje, sem medo que, livre, escandalize,
pode falar o talento, assegurado
de que maior poder lhe atemorize.

Em outros séculos pôde ser pecado
severo estudo e a verdade nua,
e romper o silêncio o bem falado.

Pois saiba quem o nega e quem o duvida
que é língua a verdade de Deus severo,
e a língua de Deus nunca foi muda.

São a verdade e Deus, Deus verdadeiro,
nem eternidade divina vos separa
nem dos dois algum foi primeiro.

Se Deus à verdade se adiantara,1
sendo verdade, envoltura tivera
em ser, e em que verdade de ser deixara.

A justiça de Deus é verdadeira
e a misericordia, e todo quanto
é Deus, todo deve ser verdade inteira.

Senhor Excelentísimo, meu pranto
já não consente margens nem orilhas;2
inundação será a de meu canto.

Já mergulharse miro as bochechas minhas,
a vista por duas urnas derramada
sobre as aras de ambas Castillas.

Jaz aquela virtude emaranhada,
que foi, se rica menos, mais temida,
em vaidade e em sono sepultada,

e aquela liberdade esclarecida
que onde soube achar honrada morte
nunca quis ter mais longa a vida.

E pródiga d’alma, nação forte,
contava, por afrentas dos anos
envelhecer em braços da sorte.

Do tempo o ócio torpe, e os enganos
do passo das horas e do dia,
reputavam os nossos por estranhos.

Ninguém contava quanta vida vivia,
senão de que maneira: nem uma hora
conseguia sem afán sua valentia.

A robusta virtude era senhora,
e sozinha dominava ao povo rudo,
idade, se mau falada, vencedora.

O temor da mão dava escudo
ao coração, que nela confiado,
todas as armas desprezou desnudo.

Multiplicou em escuadras um soldado
sua preciosa honra, seu ânimo valente,
de sozinha honesta obrigação armado.

E embaixo do céu, aquela gente,
se não a mais descansado, a mais honroso
sono entregou os olhos, não a mente.

Fiava a mulher para seu esposo
a mortalha primeiro que o vestido;
menos lhe viu galã que perigoso.

Acompanhava o lado do marido
mais vezes na hoste que na cama;
são lhe aventurou, lhe vingou ferido.

Todas matronas, e nenhuma dama:
que nomes do encômio cortesano
não admitiu o severo da sua fama.

Derramado e sonoro o Oceano
era divórcio das douradas minas
que usurparam a paz do peito humano.

Nem os trouxe costumes peregrinas
o áspero dinheiro, nem o Oriente
comprou a honestidade em pedras finas.

Jóia foi a virtude mais pura e mais ardente,
louvor e merecimento a melhor gala;
só se cobiçava o decente.

Não da pluma dependeu a lança,
nem o cántabro com caixas e tinteiros
fez o campo herdade, senão matança.

E Espanha, com legítimos dinheiros,
não mendigando o crédito a Liguria,
mais quis os turbantes que os zeros.

Menos fosse a perda e a injúria,
se voltassem-se Muzas os assentos;
que esta usura é pior que aquela fúria.

Caducavam as aves nos ventos,
e expirava decrépito o veado:
grande velhice durou nos elementos,

que o ventre então bem disciplinado
procurou satisfação e não fartura,
e estava a garganta sem pecado.

Do maior fidalgo daquela pura
república de grandes homens, era
uma vaca sustento e armadura.

Não tinha vindo ao gosto lisonjeira
a pimenta enrugada, nem do cravo
a adulação fragrante forasteira.

Carneiro e vaca foi princípio e cabo,
e com vermelhos pimentos e alhos duros,
tão bem como o senhor comeu o escravo.

Bebeu a sede os arroios puros;
depois mostraram da retama a Baco
o caminho os brindis mau seguros.

O rosto macilento, o corpo magro
eram lembrança do trabalho honroso,
e honra e proveito andavam num saco.

Pôde sem medo um espanhol viloso
chamar aos tudescos bacanais,
e ao holandês, herege e aleivoso;

pôde acusar os zelos desiguais
à Itália; mas hoje de muitos modos,
somos cópias, se são originais.

As descendências gastam muitos godos;
todos blasonan, ninguém os imita,
e não são sucessores, senão apodos.

Veio o betume precioso que vomita
a baleia, ou a escuma das ondas,
que o vício, não o odor, nos acredita,

e ficaram as hostes espanholas
bem perfumadas mas mau regidas,
e joias as que sozinhas peles foram.

Estavam as façanhas mau vestidas
e ainda, de roxo e lã, não se fartava
a vaidade de fémeas presumidas;

à seda pomposa siciliana
que manchou ardente múrice, o romano
e o ouro fizeram áspera e tirana.

Nunca ao duro espanhol soube o gusano
persuadir que vestisse sua mortalha,
intercedendo o Can pelo verão.

Hoje despreza a honra ao que trabalha
e então foi o trabalho executória
e o vício graduou a gente baixa.

Pretende o alentado jovem glória
por deixar a vacada sem marido,
e de Ceres ofende a memória.

Um animal ao labor nascido
e símbolo zeloso aos mortais,
que a Jove foi disfarce e foi vestido;

que um tempo endureceu mãos reais,
e por trás dele os cônsules gemeram,
e rumia luz em campos celestiais,

por qual inimizade se convenceram
a que seu desânimo fosse façanha,
e às searas grande ofensa fizeram?

Que coisa é ver um fidalgo da Espanha
abreviado na sela à gineta
e gastar um cavalo numa cana!

Que a infãncia ao galo lhe acometa
com semelhante munição, aprovo,
mas não a idade madura e a perfeita.

Ejercite suas forças o moço
em frentes de esquadrões, não na frente
do útil bruto a pica do espinhoso.

O trombeta lhe chame diligente
dando força de lei o vento vão,
e ao som esteja o exército obediente.

¡Com quanta majestade enche a mão
a pica e o mosquete carrega o ombro
do que se atreve a ser bom castelhano!

Com asco, entre as outras gentes, menciono
ao que de sua pessoa, sem decoro,
mais quer nota dar que dar assombro.

Gineta e canas são contágio mouro;
se restituam justas e torneios
e façam pazes as capas com o touro.

Passem-nos vocês de jogo a prémio,
que só grande rei e bom privado
podem executar estes desejos.

Vos, que fazeis repetir século passado
com nos desembaraçar as pessoas
e sacar aos membros de cuidado;

vos destes liberdade com as valonas
para que sejam corteses as cabeças
despindo o enfado às coroas.

E pois vos emendaste as emendas,3
dai à melhor parte medicina:
se voltem os tablados fortalezas.

Que a cortês estrela, que vos inclina
a privar sem tentativa e sem vingança,
milagre que à inveja desatina,

tem por sozinha bem-aventurança
o reconhecimento temeroso,
não presumida e cega confiança.

E se vos deu o ascendente generoso
escudos, de armas e blasones cheios,
e por timbre o martírio glorioso,

melhores sejam por vos os que eram menos4
Guzmanes, e a cume desdenhosa
vos mostre, a seu pesar, campos serenos.

Logre, senhor, idade venturosa,
e quando nossas forças examina
perseguição unida e belicosa,

a militar valente disciplina
tenha mais falantes que a praça:
descansem teia falsa e teia fina.

Suceda à marlota a coraza,5
e se o Corpus com danças não os pede,
véus e ouropel não façam vaza.

Quem em trinta lacayos os cede,6
faz sorte no touro, e com um dedo
a faz nele a vara que os mede.

O mande assim, que vos assegurar devo
que tendes de restaurar mais que Pelayo
pois valerá por exércitos o medo
e vos verá o céu administrar seu raio.

Pedro Sevylla de Juana
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Notas

  1. Se cambia en los tres versos la palabra final. En aras de la forma, se utiliza en vez del pretérito imperfecto de subjuntivo, el pretérito pluscuamperfecto de indicativo.
  2. Se utiliza orilhas, en aras de la forma, en vez de beiras que ya estaría contenida en margens.
  3. Se cambia la palabra para mantener la rima manteniendo el sentido.
  4. Se cambia la palabra a favor de la rima conservando el sentido.
  5. Se mantiene marlota, especie de saya morisca.
  6. Se cambia la palabra a favor de la rima sin cambiar el sentido.